quinta-feira, 5 de março de 2009

Além Mundo

Um relâmpago cintila dentro de seu tempo e eu acredito que alguém possa guardar as memórias do mundo.

Era uma vez, e tudo começou com um bater de asas. Ele veio assim, abraçando o mundo em uma queda livre, como se fosse uma estrela cadente rasgando o tempo. Seu corpo colidiu com o chão num baque surdo fazendo os ossos de seu corpo estremecerem. O lençol de água eclodiu salpicando os arredores.

O jovem e pequeno Thomas se levantou olhando o poço em que estava. Sua respiração ecoava pesadamente enquanto observava o infinito a sua frente. Um mundo subterrâneo ao meio de cristais e rochas que se fundiam num universo rochoso.

Um desgraçado — eu devo dizer. Um pequeno e desafortunado patife. Que olhava com aqueles malditos olhos prateados que continham um brilho quase sobrenatural. Andando de um jeito curioso, com passos desengonçados que cobriam o caminho. Ele fitava de queixo caído as figuras rupestres que tomavam espaço no teto, estavam gravadas com sulcos na rocha tosca. A luz vinha de tochas firmadas na parede, fazendo — com o crepitar do fogo — as sombras dançarem de forma bruxuleante ao som dos pingos enormes das estalactites.

Atravessando uma fissura ele continuou a exploração. Em que diabo de lugar eu estou...? Pensou ele. Seu pensamento soou alto pelo lugar, como se estivesse falado em voz alta, mas ele nem sequer havia aberto a boca! Assustado, as únicas coisas que tomaram o palco da sua mente foram seus sentimentos. Estava confuso e quanto mais ele avançava, mais o terreno se tornava difícil. Uma neblina se formou em seu caminho, deixando turvo não só o ambiente, mas a vontade do pequenino.

Um fio de suor deslizou por sua testa. Deve ser uma caverna, devido o tamanho dessa extensão... Mais uma vez sua voz reverberou ecoando pela caverna abaixo. Resolveu parar de pensar. Deixando sua atenção se preocupar com o mormaço que se estendia abafando o lugar, ele tentou não se importar, sem sucesso, pois aquilo era uma grande mentira até pra si mesmo. Estava se esgotando, ia arrastando os pés quando seu pé afundou e a água o atolou até a cintura.

Notou, então, que um açude se formava a sua frente. Como mágica, a neblina se dissipou dando lugar a um grande rio negro que se perdia no horizonte. Ótimo pensou alto sem se importar com o eco Ando léguas para dar nisso... , ele já ia voltar emburrado quando viu no horizonte um barco vir sonsamente pela superfície sem maré do lugar. O pequeno barco vinha diminuindo a distância vencendo o rio negro. Apertando os olhos, ele pode ver um ser oculto num manto remar lentamente com seu leme.

O barqueiro o olhou de cima a baixo. Desde os palitos que eram as pernas de Thomas até o cabelo branco e desgrenhado da criança. —Uma cor bastante normal para crianças mestiças. — Desprezou com um nojo aparente. As roupas surradas do pequenino, que realmente já dotavam de anos de remendos, tornando-o aparentemente sujo... E antes de qualquer protesto de Thomas pelo ultraje, o barqueiro estendeu a palma da mão, mas abaixou-a assim que viu a cara indagadora do garoto.

Ele tirou o capuz, um rosto cadavérico com olhos fundos se destacou sobre as inúmeras cicatrizes de seu rosto castigado. Cabelos ralos lhe desciam até o ombro de forma encaracolada. – Dinheiro, criança. — Disse ele. — Já não é fácil navegar no inferno e ainda por cima não paga as duas moedas de praxe do Caronte? — Finalizou ele em tom severo.

Constrangido, Thomas levou a mão ao bolso e estendeu a mão para o barqueiro do inferno. O velho franziu o cenho. — Só uma...? — O garoto deu de ombros. O velho suspirou fundo e disse — Certo. — E o puxou ainda relutante para a embarcação. Empurrou com um chute a pedra do ancoradouro para dar impulso ao barco (que deslizou suave na maresia).

Depois de um tempo navegando, a única distração de Thomas foi ficar olhando a superfície líquida do rio, que, a não ser pelas ondulações que o barco produzia, parecia mais um diamante negro derretido de tão sólido e volúvel que era. Como uma camada de lençol escuro cobrindo as trevas daquele lugar.

Ele ficou reparando as profundezas, parecia que via sombras. Pois, ou seus olhos o enganavam, ou ele via vultos de mãos tentando alcançar a superfície. Isso fez com que um calafrio descesse a espinha do pequeno enquanto o velho Caronte ia com um sorriso debochado estampado no rosto.

Agora, o teto da caverna rochosa abriu para um céu impetuoso. Nuvens púrpuras — Tão vivas quanto sangue. —tomavam todo o céu que chovia pesadamente, mas não caia uma gota sequer e sim, raios que retumbavam tentando agarrar o chão.

Os trovões pareciam lamentos, gritos de agonia que só a morte poderia clamar. Thomas se encolheu num canto abraçando seus joelhos. Sua voz falhou antes de perguntar. — Onde estamos? — A resposta não veio e por isso ele insistiu —...No inferno? — Uma explosão de gargalhada encheu o ar, o velho riu tanto que teve de limpar as lágrimas dos olhos, enfim ele respondeu —...Não rio assim há muitos séculos, mas respondendo sua pergunta, não é o inferno, é muito pior que isso. — Respondeu ele remando ao lado oposto para fazer o barco inclinar na curva sinuosa.

Antes que pudesse reclamar mais, uma cidade foi vista a pelo menos um quarto de hora. Thomas podia ver que lá as nuvens eram negras, elas se moviam circularmente em torno de uma grande torre que se perdia entre as nuvens. — O que ela é? —Perguntou o pequenino.

Ele pigarreou antes de falar, e respondeu num tom que parecia ser um trocadilho pela ironia na voz — Aquela é a torre de Babel. — Disse ele rindo da própria inteligência fazendo Thomas resmungar. Dando de ombros ele continuou a observar atentamente; inclinando o pescoço a fim de ver mais. Notou alguns prédios tortos, pelo visto, todos completamente destruídos.

Nossa... Pensava ele enquanto via o terror, aquilo era o fim do mundo, o caos sem multidões mostrava completamente o fim dos tempos. Um vento — pesado e avassalador — cruzou sobre eles, Caronte impulsionou até uma encosta perto de árvores feitas de pedra e mostrou um caminho ladeado de cercas vivas. — É só até aqui que me arrisco a navegar. — Com uma pausa e um olhar apreensivo o velho se curvou numa reverência — Bem vindo, meu amo, ao seu coração.

* * *

Em mim, reside aquele que julga o sono das almas.


De dentro da noite, brilhava nas sombras um sorriso penoso. Guardando em seus olhos o caminho das almas. Ele vinha vestido de pesadelos — retalhos de sobras dos sonhos mortais. —Andando curvo em meio às tormentas.

Cruzava seus aposentos enquanto desenrolava um novelo de lã, desatando os nós que mantinham os laços humanos presos a realidade. Ele driblava em sua fatalidade inteiriça com um dedal que retinia a luz delgada de uma pálida lua.

Pontos — assim como era chamado pelos ventos, por dar os pontos finais a vida das pessoas... — fitava com olhos vazios as montanhas do Vale Minor (que era onde ele morava). Ele tinha baixa estatura e tudo em seu aspecto convergia na mais pura depressão.

E pelo que sei, ele é um maldito Moiro. Sim é isso que é... Se não me engano. Um ser que anda acima da corda do tempo com o ofício de cortar os fios de vida de uma pessoa.

Olhando sempre o caldeirão borbulhante de sentimentos que se fundiam nas cores do mundo ele podia trançar o destino daqueles que estavam prontos para a morte.

Ia mexendo com uma colher de carvalho o liquido denso, jogando mais lenha no fogo. Parecia tranqüilo, de um jeito nebuloso a esconder suas intenções em milhões de pensamentos. Vinha cantando, sibilando uma canção antiga enquanto cozinhava a morte para os tolos mortais.

Morava mal, num casebre açoitado pela estiagem. Uma pobre morada feita de madeira tosca, com grandes janelas bordadas com cortinas puídas que dançavam ao furor do vento.

Pontos varria o chão de mogno, olhava de esguelha o caldeirão. Assistindo o último fôlego de vida de um humano se estender para um beco sem saída. Isso fez com que ele corresse para seu tear e puxasse um fio prata que vibrava como metal, puxou a tesoura tortuosa na mesa e admirou o fio na palma de sua mão. Passando prazerosamente o dedo na lâmina por ele.

O parco tecelão, que via a milênios os fios se entrelaçarem, ainda se fascinava em como todos os fios estavam inevitavelmente interligados, e como um simples ato, por minucioso que fosse, movesse o mundo. Como se as vidas ‘vestissem’ a história como um todo, como se a gama de sentimentos se instaurasse na humanidade, em um só corpo.

A imortalidade lhe trazia uma perspectiva distante, deixando sua personalidade mutável, como se estivesse apático, entediado. Por sempre saber em que toda grande história, por maior que fosse, levasse a mais profunda noite...

A tesoura parecia ter fome, com suas garras abertas ela reluzia ameaçadoramente seu júbilo. Movendo com um som agudo partindo do metal nas suas entranhas. O barulho da fricção do metal guinchou de forma agonizante, como se o barulho fosse de um estômago que passou dias a fio sem comer.

Ela deslizou sorrateiramente caçando sua presa. O fio, por sua vez, parecia ter vida quando se retraiu fugindo do fluxo mortal. Com um bote, o ataque foi iminente, decepando o fio que agora perdia seu brilho prateado, se tornando um velho trapo feito de lã. Com isso a tesoura, agora saciada, se deixou descansar no espaldar da cadeira.

Pontos fungou, arrastando os pés em direção ao caldeirão. Seu trabalho estava feito. A alma agora estava marcada para morrer. O destino marcava com sangue naquele exato momento o caderno do Ceifador com um nome nada peculiar, Thomas Grings.

* * *

O vento vestiu a tarde, plantou bananeira e mostrou seus soquetes azuis trançados de nuvens pro mundo inteiro ver...

O mundo dormia. E ele vinha atravessando as ondas, cortando o fôlego do tempo. Deslizava flutuando rapidamente pelo oceano. Vestindo a noite com manto comprido, daquele jeitinho despretensioso e irritante de esconder a sua glória. Era a morte — como todos o chamavam — que como diz a lenda, carrega uma foice em uma das mãos e na outra, o destino do mundo.

Naquelas horas da noite, uma chuva fina e amena caía derramada de nuvens marrons que pareciam ter um gosto agridoce. O velho cruzou a costa do farol num salto, entrando em terra firme por uma ponte castigada que rangia rudemente.

Passando pelo porto silenciosamente, ele recostou-se na muralha que protegia a cidade e antes de começar seu trabalho noturno ele curtiu a brisa que lhe afagava as maçãs do rosto. O vento despiu seu capuz, fazendo seu cabelo longo e prateado ondular no ar.

A lua o observava timidamente atrás do céu chuvoso. Tinha um rosto castigado... Com uma boca fina e rachada, e sulcos aos cantos dos lábios que lhe davam um parecer de ter uns oitenta anos. E logo acima dos lábios crispados, vinha com um nariz curvo e adunco.

A única coisa que traía sua idade era não haver marcas de rugas em sua testa, como se a preocupação nunca houvesse esculpido nele as conseqüências do tempo, parecendo que só foram talhadas as experiências em um cérebro sagaz.


Agachando-se, ele passou os dedos no solo de pedra batida e os trouxe ao olfato. Erguendo seu nariz ele inspirou os medos da noite que estavam incrustados na terra. Jogou os cabelos para trás de seu rosto dando destaque a faixa que cobria sua visão.

A morte em toda a sua justiça, era cega. E por ironia ou não, carregava um livro que naquele exato momento foi jogado ao chão de forma proposital, como se pra ele, fosse um ritual diário. O feito fez com que um cheiro se desprendesse das páginas e enchesse o ar com um aroma férreo de sangue.

Voltando ao trabalho, ele guardou o livro em suas vestes, transpassou o muro como se ele não existisse—pois afinal, ele era um espectro. —e empinando o nariz pontudo, o velho Ceifador seguiu o cheiro com seu instinto. Subindo lento e tranqüilo a trilha que se ligava ao vilarejo que, naquele horário, tinha seus pescadores que começavam a se preparavam para pescar.

Saíam antes de o sol nascer e por esse motivo, o começo do vilarejo tinha um cheiro rascante de querosene, o que significava que os primeiros lampiões se acendiam no meio da noite, como estrelas cultivando o céu.

O velho tentava apreender cada detalhe, subia a alameda sob um caminho de paralelepípedos. As janelas começavam a ser entreabertas e deixavam vazar uma luz amarela das luminárias do recinto. Os burburinhos foram vindo aos poucos, mas de todos eles, o único que chamou a atenção foi um arpejo de uma flauta doce que soava distante dali.

Indo em direção ao som, o Ceifador se pegou tamborilando o cabo da foice. Voltando a atenção ao caminho, cruzou mais casebres surrados até o fim da viela. O caminho se desfez em uma taverna (que era de onde vinha aquele mágico som ancestral).

Ele parou antes de entrar, sentindo um cheiro convidativo. Suas mãos deslizaram para o tampo de um tonel de vinho. (Coitado do lazarento, era mesmo uma pena vê-lo entristecer por não ser um mortal.)

Passando pela pesada porta de carvalho, a sua presença trouxe um fluxo anormal, que, devo dizer, era o rastro da morte. Aquilo fez com que os guizos vibrassem em sua chegada.

Com suas superstições pagãs, os boêmios se encolheram fazendo mantras, até que um se arriscou a dizer — É só o vento e nada mais... –Disse ele fazendo suas preces segurando o martelo de seu deus no peito.

Divertindo-se, o Ceifador escolheu uma mesa aos fundos e repousou sua foice no colo. Ele ouvia pacientemente o burburinho dos bêbados, o leve tom dos copos de hidromel batendo na mesa e logo, o barulho de gritos na noite.

Sorriu satisfeito. Os clientes da taverna saíram com olhos esbugalhados, viam aterrorizados um mar de tochas que ascendiam para o leste da cidade.

O barulho das garruchas batiam ritmadas ao som das trombetas. Batiam aquelas armas rústicas nos escudos, o que significava alarde geral. De fato aquela era uma busca imperial. E Justamente aquilo era tudo o que o velho esperava, uma confusão...

Ele resmungou. Levantou-se e esgueirou porta afora ao ar puro da noite. As janelas foram abertas a uma fresta segura. E pelas vazões das cortinas de retalhos, podiam ser vistos os olhos apreensivos de mulheres e crianças que buscavam sentido na confusão, dotadas de certo horror nos olhos.

Ao fim de evitar as massas, o espectro driblou por um beco. Viu ervas daninha se abraçarem com um muro de forma singela. O lamaçal surgiu discretamente de forma espessa e grudava na sola das sandálias do velho Ceifador, que com seus passos, fazia ressoar o baque do seu andar sob a luz das estrelas.

A noite nublada era formada de estrelas vivas, que ao mando da escuridão, os vaga-lumes circulavam caminho adentro substituindo os astros celestes, dando àquela situação de caos uma certa trégua.

O velho manteve uma distância segura, num silêncio solene a espera de exercer sua função. Vendo ao fim da rua, um corpo miúdo se embrenhar por um muro de piche. Manteve a apreensão no desdobrar dos acontecimentos seguintes.

A glória daquela fuga durou como a fama, que de forma iminente as trombetas soaram novamente e encheram o ar, uma flecha rasgou o céu e atravessou o ombro franzino de Thomas mutilando sua carne, ele caiu de meros três metros e, ao deslizar devido à inércia, bateu na parede lateral com o lado do corpo fazendo deslocar o osso do braço atingido.

Ele saiu deslizando no solo úmido bordado de lodo. Com a cara levemente apoiada numa poça da rua. Seu corpo gemia pesadamente com fisgadas de dor animalescas invadindo seus nervos.

Levantou-se em meio a suas gargalhadas cansadas e saiu cambaleante rua acima. Ofegava pesadamente quando passou pelo Ceifador, que o seguia sem pestanejar com seus passos largos.

O cheiro de sangue encheu o ar, descia um filete de sangue pelo punho cerrado do garoto, e na outra mão, os dedos serrilhavam encima de um livro velho e gasto.

Thomas jogou o corpo em um banco de pedra. Pôs a mão sobre a seta da flecha e gemeu penosamente quando a flecha soltou estilhaços dentro de seu ombro. Com uma força desumana ele apertou-a em seus dedos e fez força. A madeira quebrou com um estalo e ele estremeceu com a dor caindo de joelhos enquanto sua visão se fechava a sua frente.

Demorou a se recompor e ainda cambaleante, pôs-se de pé. Tremia pelo feito desumano. Terminou o trabalho puxando a parte de trás da flecha pela pena, retirando do sulco dentro de sua carne. Um gêiser de sangue brotou e ele bambeou quando viu suas forças se esvaindo. A fraqueza quase o abateu.
Mordeu a manga da blusa e puxou com os dentes rasgando a seda até o cotovelo. Passou por cima do ombro e improvisou como bandagem. Saiu aos tropeços seguindo seus instintos. O Ceifador sorria de um jeito misterioso.

Thomas ziguezagueava pela viela, sendo guiado somente pelo som dos sinos, enquanto a febre se apossava bravamente de seu ser. Sentia uma fisgada de fadiga nos rins, e como seu corpo falhava, tentava se agarrar ao ar rarefeito e fugir do breu que ameaçava o nocautear e o deixar desmaiado.

Depois de meia-hora que parecia ter se estendido como semanas, ele acumulou todas suas forças e se jogou contra a porta de carvalho da catedral daquela cidade, que abriu rangendo.

Seus olhos prata foram recheados da luz de velas dos candelabros com uma luz etérea que produzia um tom fantasmagórico. Avançava se escorando na fila de bancos, olhando as figuras oníricas bruxuleantes das estátuas e vitrais, pareciam fantasmas sendo torturados nas retratancias do inferno.

Uma chuva de cores vindas das figuras dos vitrais tingia o que restava da noite. O pequeno se jogou atrás do confessionário, se escondendo e descansando o máximo que podia. Seu corpo vacilava com uma adrenalina que o estremecia dos pés a cabeça, acompanhada com uma rajada de pensamentos que trovejavam de seus olhos. Eu nunca sairei vivo dessa... Um tremor subia por suas pernas, fazendo seu corpo amolecer.

Um grito ensaiado veio de trás do umbral da catedral. Os guardas formavam um cerco e ameaçavam adentrar. Quando viu que iriam entrar, ele se inclinou apoiando o corpo com uma das mãos, que tremeu furiosamente com o peso do corpo mutilado.

Ele duvidou de que teria força suficiente para continuar o percurso. Mas não havia mais tempo. A porta se abriu com um estrondo, e ao vibrar das garruchas, o pequeno Thomas saiu em disparada escadaria acima.

Parecia que os quadros haviam criado vida naquele momento de clímax, as figuras traziam um horror nas impressões como se estivessem a par dos acontecimentos e sofressem tanto quanto ele, mas eram os sentimentos de Thomas que montavam uma aquarela, como sua esperança, agora espatifada no chão...

Subiu se escorando no corrimão, deixando seus rastros de sangue na memória daquela igreja, que fosse ironia ou não, aquele era um local um tanto cômico pra se morrer, digno de sua mediocridade, sujaria a imagem do lugar.

Ele pulava os degraus da escadaria circular de dois em dois, olhando pela janela e vendo como a aurora ameaçava se levantar acima da boreal. Ele Chegou ao terraço e abriu a porta com um solavanco.

O garoto se escorou na parede com seus olhos girando as órbitas pela dor que se auto-aplicava com aquele esforço. Rezava como nunca, rezava mesmo sem acreditar, mas de todo, se negava a desistir.

Uma calma estranha se apoderou dele quando não encontrou outras saídas. E, junto com um vento que dançava ao seu lado com um trote espalhafatoso, ele caminhou sem medo.

O Ceifador já estava de pé olhando a cidade alerta lá de cima, achando graça das supostas exclamações quando viu o pequenino subir no parapeito — sinos.

Parecia que o céu celeste o coroava com o sol. Ele inspirou pesadamente, deixando a vida entrar. Os guardas romperam o portal do terraço e invadiram em sua forma rude. Demonstrando um ar superior estampado na face.

Apontavam suas garruchas para o pequeno que estava de costas. Mandando ordens com a intenção de fazê-lo cumprir, eles apontavam as armas mirando no corpo franzino do menino.

Thomas parecia uma ave de rapina, com um orgulho que vestia sua pompa, um corpo esguio e aprumado, e braços firmes que abraçavam ao resto de vida como podia.

Mas toda a impressão que dava era diferente do seu semblante. A confiança dos guardas desapareceu com o choque, porque além da situação, de todo o inferno que produziram, ele sorria. Seu ar agradecido os atacou em cheio, pegando-os desprevenidos. Uma calma surreal fora aliviada naquela tensão.

Até que ele se inclinou para frente. E como se o mundo desbotasse ao seu redor, tudo escureceu, o mundo parou, o tempo dormiu e tudo escureceu num só instante.

Foi então que se instaurou o breu e eles dois, Ceifador e Thomas, residiram no vazio em meio ao rasgo do tempo. Um arrepio percorreu a espinha de Thomas quando uma mão pesada e fria repousou em seu ombro. Olhou paralisado, ao seu lado. Um Ceifador que estava impassível.

O garoto se encolheu. Afinal de contas, quem é que não sentiria medo da própria morte no instante que ela desse as caras?

O velho se sentou no parapeito. Seu manto parecia cobrir o mundo agora. Em outra situação, poderia até se confundir a cena a uma simples conversa casual se não fosse o ar severo com que o velho fazia suas menções.

O Ceifador subiu as mangas, levantou o queixo e desfez o cenho apreensivo.

— As vezes sinto que a vida é pequena, cabendo na palma da minha mão... Como se a cada morte eu pudesse recolher um mundo e o pintar num quadro, deixando que sua natureza embote sua posição em seu devido lugar na moldura da história. Marcando as pessoas e deixando lacunas insubstituíveis... —Thomas escutava apreensivamente sentado num canto, abraçando suas pernas. Olhava de esguelha enquanto ele falava.

—... As vezes penso que vivo vagando nas costas do vento. Escrevendo a execução na alma das pessoas, condenando todo e qualquer sentimento... Seria então, eu, tão desumano assim por dar cabo da dor que permeia no coração dos homens? — Perguntou se direcionando ao céu.

— Seria tão injusta a existência a fim de não se dar o sentido naquilo que foi dado a todos os nossos esforços? De se perder na essência e se dissipar nas memórias... —Disse dando uma pausa retórica. — Não é por isso, caro Thomas... Existe muito mais escrito dentro das próprias palavras na qual o mundo pode repousar em paz... — Disse ele em tom suave, mesmo que sua voz fosse tão retumbante quanto um trovão.

Sua mente vagou. Ele tentava recapitular os fatos. Sua mente vagou quando entrou em seu coração no instante que o barqueiro Caronte o havia deixado.

O Ceifador foi a sua direção, ele sentia todo sentimento que transbordava no coração dos homens, ou seja, sabia tudo o que Thomas sentina naquele exato momento.

Ele se agachou na direção do pequeno fazendo seu dedo indicador tocar na testa de Thomas, extraindo os fatos que explodiram em cores na dimensão ao redor deles, como fotos em movimento que preenchiam o escuro ao fundo deles.

Flashes da queda dele ao poço se estendiam dimensão afora, via os fatos rolarem até a ida dele a cidade que deveria ser seu coração. Ele andava desolado vendo os prédios — que deveriam ser seus sonhos. — que estavam completamente destruídos...

Soube, andando pelas ruínas de seu coração, pelos memorandos jogados no meio do caminho que aquela torre, a única torre que se mantinha erguida, era na verdade o seu orgulho...

Lágrimas desciam quando ele via que nas paredes das casas debulhadas as ordens de evacuação. Os sentimentos o abandonaram, sua razão se exilou em seu subterrâneo, até mesmo sua dor foi varrida a maior apatia... Ele estava abandonado.

Havia entrado na torre, a procura de resposta ou almas vivas que pudessem fazê-lo viver, um motivo suficiente pra se agarrar ao fôlego... Mas não havia absolutamente nada a que pudesse se agarrar. Só o medo da morte que tomava controle de seu corpo enquanto ele andava pelas profundezas da torre negra.

O desespero tomou conta quando se viu ladeado de uma escuridão tão imensa quanto a morte. Viu uma luz pálida que vinha de um canhão de luz que chamou sua atenção. Caminhou até lá para ver o que havia de tão especial naquilo.

Seu peito palpitou quando viu um livro aberto de forma solitária no meio do nada. Respostas! Pensou ele quando avançava aos pulos, mas quando bateu os olhos só viu as páginas em branco.

Tentou procurar... Procurou tudo, mas só havia o vazio. —Não! — Gritou em meio aos soluços... —Não posso! Eu não quero acabar assim... — Disse se encolhendo no canto do saguão deixando sua alma rasgar...

Sentia raiva de si, sentia raiva da vida por ter feito de tudo aquele inferno. A ira tomou conta por causa de tudo aquilo, e deixando o ódio se apoderar de si, tirou o livro do estande. Quando fez isso, um alarme soou.

Alarmado, ele segurou o livro e se afastou do local e antes mesmo que pudesse fazer algo, homens segurando armas investiram brandindo suas espadas em sua direção.

Aos gritos, eles correram atrás dele ao resgate de seu item, o único item de valor que havia encontrado. Ele se agarrou a aquilo como um pedaço de vida. Pondo seus olhos no esquadrão, percebeu que aqueles eram os frutos de sua razão. Soldados da sua lógica.

No que eu me tornei?! Pensou ele enquanto fugia de si. Fugia da própria morte em sua fortaleza, fugia para dar esperança ao único feixe de luz que ele tinha. Afinal que livro seria esse para ter tantas defesas assim só para proteger um livro sem respostas?

Ele deslizou, saltando entre as escadas enquanto descia verticalmente, mas quando chegou ao térreo uma tropa fazia uma barreira impedindo sua passagem. A determinação explodia dentro dele, ele saltou para a direita distante das garras dos guardas.

É o meu coração! Pensou ele enquanto corria contra sua sorte. Se ele se conhecia o suficiente pra saber quem ele era. Usou toda sua racionalidade. Pois sabia, sabia que ele sempre se apoiava numa fuga.

É isso! Pensou ele enquanto patinava no chão liso do Hall. Sempre finjo me refugiar no senso comum. Pensou ele quando atravessou o portal a sua frente, Aonde eu sempre fui fraco!

E corria atrás da mesa real do castelo, Na minha fortaleza! E pulou contra o espelho atrás dos tronos dos reis em sua mente. Nas minhas ilusões! E saltou contra o espelho atrás da mesa de banquete. O objeto se espatifou abrindo espaço para um caminho ladrilhado em direção a vila. Um túnel que o libertava de seu destino!

Aquela era uma parede falsa, como havia imaginado. Estava salvo... Pelo menos por hora... Ele deslizou até entrar pela torre da muralha da cidade e correu pelas alamedas enquanto procurava se esconder...

As memórias se apagaram, o Ceifador se levantou e disse: — Daqui em diante — disse ele pigarreando — Eu estava observando. — Vendo que seu plano de fuga havia dado errado, Thomas se deixou desabar num choro copioso.

O Ceifador o ergueu pelo colarinho e disse — Pelo menos morra com dignidade, seu verme. — Com isso ele tentou engolir o choro e assentiu, para o alivio do velho.

O Ceifador deu suas últimas palavras — Não tema, pequenino, antes mesmo que chegue ao chão, eu te pegarei.

Antes de qualquer protesto a dimensão voltou ao normal, estava ele pronto para pular. Dessa vez, toda e qualquer confiança o havia abandonado. Só alguns metros o distanciavam do ponto final, ele abriu os braços consentindo com seu destino e, enfim, com sua desgraça.

Então ele pulou, e tudo começou ali, naquele momento, com um bater de asas. O Ceifador, prestes a desferir o golpe final, traçou o ar com sua foice; não havia mais Thomas, não havia vestígios. Só certa dúvida, de que talvez, aquela foi a primeira vez... A vez que um ser humano havia enganado a morte.

2 comentários:

Trevisani disse...

noooo Lucas gostei mto cara
parabens

F. disse...

Achei muito massa a parte que o menino pega o livro do coração dele em busca de respostas, as páginas em branco, e ele diz " Não! — Gritou em meio aos soluços...— Não posso! Eu não quero acabar assim... — Disse se encolhendo no canto do saguão deixando sua alma rasgar..." Me identifico com seu herói.

E tb as suas descrições estão mais intensas que nunca, as colocações expressionistas, achei bacana isso, o exemplo está bem aí "deixando sua alma rasgar". Me identifiquei com o menino especialmente nessa parte.

E como ele pensa na escapada, a fuga do senso comum, pra onde ele leva o livro de seu coração onde poderá preencher as páginas , em sua fortaleza.

Gosto especialmente das partes em que vc insere insights "casualmente" (talvez não premeditados), quando vc como que usa episódios da saga do herói, momentos, pra exprimir uma verdade pessoal, por ex " Uma calma estranha se apoderou dele quando não encontrou outras saídas." Achei excelente isso. Quando a gente luta pra resolver um problema e finalmente se convence que não tem saída, isso nos permite a mesma paz de como se tivéssemos encontrando a solução.

Se fizemos tudo que estava ao nosso alcance, e descobrimos que não há o que fazer, que nada adianta, que venha o fim do mundo.
Morreremos como heróis - ou palhaços - mas na certeza do dever cumprido.