terça-feira, 10 de março de 2009

Chá das Seis



Uma dúvida foi o suficiente para fazer o senhor Samuel—veterano de guerra, amável corretor e vigarista em horas vagas—sair do túmulo. Proveu de sua cartola e ajeitou suas vestes amarrotadas por muitos séculos. Com um nó em sua gravata borboleta ele subiu a ruela de paralelepípedos até que se encontrou em uma ponte acima do Rio Légio. Pensativo, pressionava o indicador sobre os lábios enquanto circulava pelo passeio, tinha um ar arauto, com uma barba grisalha que lhe caia muito bem perante sua personalidade, angular, simples e discreta.

Pôs-se a andar para um antigo casebre da família Capucci,—que era evidente ser de origem italiana—seu antigo refúgio depois da guerra. Com duas batidas ele anunciou sua chegada, colocou as mãos num gancho atrás das costas e esperou, balançando o corpo pálido para frente e para trás. Do fecho da porta dois olhos azuis apareceram junto com um ar inquisidor. O velho Samuel franziu o cenho e ela perguntou—O que deseja, senhor?—Sem rodeios ele já ia falar o nome quando um branco lhe acometeu, ele tentava se lembrar do nome enquanto arranhava o chão com seus sapatos carmesim.

—Digo, ou devo dizer, que procuro o Duque de Belatona, ou supostos anfitriões. —Disse com um vigor em seu peito, com um poderio de influência numa pompa de arrogância, que foi esvaziada com um leve cortejo da ama—Pelo que me compendia, sei que tais donos já se foram dos vivos a algumas décadas.—Disse ela com olhar severo reparando o desconcerto do velhaco, que retomou sua formalidade.—E poderia, pois, me apresentar aos seus descendentes ou supostos donos.—Ela negou com um aceno, mas aconselhou—Se quer algum dos remanescentes, procure na pequena adega do Bar de Conde Omar.

Com uma leve reverência ele se retirou até a avenida e se direcionou a um policial montado. Que com um desprezo o agente lhe indicou um pobre casebre surrado ao fim da rua. Com um ar apreensivo Samuel foi com sua bengala até lá e tocou na porta com o nó dos dedos. Ao invés de reverberar seus toques, com a mais simples das batidas, a portinhola se abriu revelando um cheiro rançoso de alimento estragado. Resmungando baixo ele entrou no ambiente bolorento, até entrar na tal adega.

Quando acendeu o lampião, os retalhos no fundo do compartimento se mexeram mostrando uma alma viva que se pôs de pé num salto e veio lançando maldições. Era um mais ou tão velho em vida quanto o parco Samuel, mas neste, a pobreza lhe fraturou os dentes e raleou seu couro cabeludo. Um dedo ossudo apontou ao peito de Samuel mandando-o para fora. Ultrajado ele protestou, mas parou no ato fitando a face do patife—Visconde?—Perguntou Samuel indignado.

O outro parou no meio de sua cólera o olhando atencioso. —Não me chamam de Visconde há um século... —Respondeu ele se aproximando. Otávio, como era seu nome tinha seus sete anos quando o velho Samuel visitava seus pais na mansão dos Capucci, porém, depois da queda dos sovietes, força que a família tinha influência e poderio, faliu e toda a riqueza que tinham foram para pagar seus credores. Isso havia acontecido a mais de setenta anos e agora, só o pequeno Otávio sobrava daquela mixórdia. —Não pode ser, um fantasma depois de tantas bebidas da noite anterior. —Mas sem se assustar, Otávio puxou um banquinho e colocou um bule num fogão de lenha na sala ao lado. Voltou correndo—Melhor as alucinações do que pesadelos desinteressantes.—Disse ele com um ar desolado e se sentou olhando a assombração a sua frente.—O que me trás essa honra?

—Venho por... —Mas antes que continuasse uma velha caduca faltando metade dos dentes e da sanidade também veio brandindo o guarda-chuva fechado, ela se mostrou ser a mulher de Otávio, histérica como si só, veio em uma cólera sem precedentes. Otávio lhe repreendeu com um olhar e voltou a atenção a Samuel. —Não ligue para ela, essas coisas de mulherzinha hoje em dia é o mal do século....

Com um sorriso moderado Samuel balançou o cenho negando a acusação de Otávio—Não posso te dar apoio nisto, pelo que sei, a histeria é tão dono dos homens quanto das mulheres e a qualquer um que seja submetido a uma carga grande de estresse e problemas, pode ruir com seu controle e dar faceta a esses demônios do instinto. —Como um grande ignorante que era Otávio fez de sua face uma grande interrogação. —Pra ser mais claro devo dizer que o instinto é o que molda nossa essência, Otávio, pois até mesmo os sentimentos são maquiados ao prazer dos instintos.

—Humm...—Exclamou ele entendendo, mas logo saiu correndo pegar o bule já fervendo, dispensando uma xícara ele sorveu um pacote de mate e entregou para Samuel que aceitou sorrindo.—Então quer dizer que no fim das contas não somos nada mais do que animais adestrados?—Samuel gargalhou alto enquanto continuava—Não tão radical assim, mas tenho que dar razão, pois da nossa essência, esses histéricos, os frenéticos, são os que deixam sua essência transbordar, ou seja, os mais justos para consigo.

Otávio fez um floreio com o dedo para que ele continuasse. —A essência de uma pessoa é aquilo que a deixa vulnerável ao mundo, quando não se tem controle sobre si, é quando deixa a própria natureza falar, a pessoa que é mais paciente, mais moderada e compreensiva, esta têm mais conhecimento de si e consequentemente controle desse núcleo magmático que é a nossa essência, criando assim crostas que fazem uma fortaleza pra proteger, devo dizer... Hum... Seu tesouro. —Disse ele satisfeito com a comparação e endossando sua garganta com um gole de chá mate.

—Então aquele que é mais eloqüente, é aquele que mais tem conhecimento de si?—Samuel completou—Mais do que isso, quando a pessoa tem preferências e gosto sobre alguma coisa, é porque ela se identifica com isso, aquilo faz parte da personalidade da pessoa. Então, o mais eloqüente é, além disso, um ser mais livre em seu próprio mundo. Pois até a visão e a consciência, é uma projeção de mundo. —Otávio se sentia um ignorante e com razão, até mesmo Samuel se sentia pequeno em relação ao assunto. —Devo dizer que disso tudo, os sentimentos são totalmente direcionados pela vontade, moldados pela determinação e os costumes dessa pessoa.

—Como assim?—Samuel suspirou. —É simples, o desejo instintivo de uma pessoa leva a esta criar ilusões e projeções, para este, favorável para seu bem estar, assim como a preservação da moral e ética. Pois todo e qualquer ser vivo depende de muletas sociais e, portanto, é difícil se prostrar diante desse incólume dilema. Uma explicação prática disso é a necessidade econômica de qualquer pessoa, ou da carência social. As aspirações sempre permeiam toda e qualquer cadeia hierárquica, por menor que seja.

—Então a pessoa que é mais instintiva seria a mais sensível, ou seria uma pessoa mais burra?—Otávio colocou mais chá para os dois—Não se pode ser tão específico assim, a pessoa mais sensível é aquela que se expõe mais, é aquela que se entrega mais fácil, é uma pessoa mais carente por isso e logo, depende de atenção. O sensível é mais passional, coloca mais valor e é mais compreensivo, consegue enxergar o lado de alguém. Porém, não tem nada a ver com uma pessoa instintiva, que presumo ser aquela que usa de menos da razão e por isso, é consequentemente menos inteligente.

—Quanto maior a ‘crosta’ dessa pessoa, então, maior o tesouro desta?—Perguntou Otávio, fazendo com que Samuel sorrisse. —Exatamente. O mistério de uma pessoa e o conhecimento é grande demais pra ser rotulado ou tenha alguma opinião, qualquer conhecimento é uma tentativa errada de moldar a parte pelo todo, o possível é prescrever a personalidade dessa pessoa de acordo com o script dela. —Otávio veio a intervir. —Script?—Samuel consentiu explicando—Cada pessoa cria certa gama de atitudes que são sempre semelhantes, ela sempre cumpre um protocolo diário, fazendo sempre um roteiro para si. Sempre as mesmas preferências, sem quaisquer adaptações, isso se chama script. Cada pessoa é capaz de mudar, mas cada um sempre se acomoda a um estilo mais conveniente.

—É algo a se pensar. —Disse Otávio e Samuel respondeu—Sim, é algo a se pensar. O pior, Otávio, é que a maioria das pessoas só toca na alma uma da outra, só se tem as intercessões, ou seja, tocam tão somente os sentimentos, os mesmos gostos e supostamente os planos congruentes. Por isso digo que mesmo um casal de cinqüenta anos, pode nunca ter se conhecido. Pois, para se ter conhecimento de alguém, é necessário desbravar essa pessoa e isso é algo que poucos têm capacidade ou vontade de fazer.

—Então o mais conveniente é se conhecer para depois transbordar a essência, não acha?—Samuel acenou negativamente. —Nem sempre, nem sempre. Justamente porque são poucos os eleitos para suportar a verdade que um ser porta, pode ser até mesmo inaceitável para a filosofia desta. Uma pessoa pode muito bem deixar sua essência vazar em suas atitudes, empenhar e se doar totalmente em um sonho, em uma determinação. Basta que nós mesmos saibamos como lidar com o caos que existe dentro de nós.

Já era tarde quando terminaram de conversar, Otávio acordou de seu pileque no bar quando o relógio soou as badaladas da meia-noite. Mas a duvida ressoava em sua mente. —Será que em toda a humanidade os erros, seriam problemas de perspectiva e interpretação, ou tão somente um mal entendido no desconhecer das intenções?—Sem se importar com o poder da pergunta, Otávio desligou de seu intelecto e se proveu de suas necessidades, dando atenção e empenho em servir as garrafas de cerveja aos boêmios da pequena Hamburgo. Já era tarde mesmo...

2 comentários:

Mali Ueno disse...

Reflexivo e profundo. Com seu exato estilo. Concordo com as opiniões colocadas... já leu platão?? se não leu, tente... vai se identificar um pouco, não com o assunto ou estilo, mas o modo como assumi o andamento

F. disse...

Lucas, muito bom o texto. O que eu mais gostei nele não foi nem o conteúdo da conversa entre o Samuel e o Otávio, esse tema é muito controvertido, instinto versus máscaras sociais, embora o seu pensamento esteja muito próximo da psicanálise e de Nietzsche (não dos filósofos idealistas, "graças a Deus"), mas o fato de vc colocar o assunto em dialética - não importa tanto se o Samuel está mais certo ou mais errado, mas esse contraponto entre as perguntas do Otávio, suas resistências, as respostas que o Samuel apresenta,
e sobretudo, a imagem inicial , dele ressuscitando, saindo da cova, foi muito bacana, o encontro com Otávio uma imagem bonita e engraçada ao mesmo tempo, acho que mesmo sem ser a sua intenção o humor está sempre presente nos seus textos, nem que seja numa passagem momentânea, como a aparição da mulher do Otávio, inesperada, ela vindo dar cacetada no Samuel, achei essa parte inesperada e cômica.